segunda-feira, março 19, 2007

Porto - Notas Soltas I


Estava prometido e finalmente foi cumprido. Fui ao Porto. E o pretexto não podia ter sido melhor: assistir ao jogo grande da jornada, O FCP - Sporting.

Melhor, melhor só mesmo uma vitória do Sporting e não é que eles ganharam mesmo ! Gostei de sair do Dragão com aquele omnipresente sorriso de "orelha a orelha", fitando o desespero de uma massa adepta que já se rendera à ausência de chama e chispa do futebol praticado pelos azuis naquela noite.


Não querendo parecer demasiado previsível, terei de dizer que Sábado fui muito feliz no Dragão !!!


domingo, fevereiro 11, 2007

Em dia de referendo...


Afinal, o SIM e o NÃO jogou-se de véspera. E com resultados saborosamente inesperados...

domingo, fevereiro 04, 2007



Sem dúvida que a visita do primeiro-ministro e sua respectiva prole tem sido marcada (para não variar nestas coisas do governo) por uma extensa cobertura mediática.

Uma vez mais, o clichet cumpriu-se e o nosso Eng.º voltou a dar corda aos sapatos e a querer fazer do seu jogging o espelho da excelente forma em que se encontra a saúde económica em Portugal.

Marketing à parte, não se percebe de quem foi a brilhante ideia de fardar o nosso 1º de fio a pavio com aquela fatiota da imagem, a qual poderia ter muito bem por legenda "The prime minister of Portugal is brought to you by Adidas !

Bom senso e sentido de Estado é de facto coisa que vai faltando, a menos que a contenção orçamental seja de tal extensão que a viagem ao Oriente se tenha feito sobre o alto patrocínio da dita e americana marca desportiva e ninguém nos tenha informado formalmente do facto.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Uma sentida homenagem...


A toda uma geração de "criadas" internas que muito aturaram meninos do coro, mimados em berço de oiro e que, por razões que porventura apenas uma boa silhueta conhece, viam nestas personagens caseiras algo mais do que simples lavadeiras de Caneças.


Daqui, a eles (meus amigos) pela audácia que a descoberta da adolescência sempre traz, a elas pela desmesurada e por vezes estranha compreensão demonstrada perante as vorazes e fogosas intenções dos catraios, tenho de dizer que encerraram um ciclo por vezes rocambolesco e até dramático, mas que há distância desta nossa "modernidade" toma toda uma graça e nostalgia sem par que aqui me apraz recordar.


sexta-feira, novembro 17, 2006

Descobri, se calhar é isso...

Ora vejam lá se não é... Dinheiro para gastos

Notícia quentinha de tanto vodka

- José Milhazes ?
- Sim, aquele senhor de medidas largas e barba farta. Não estão a ver ? Aquele que tem uma voz entre o esganiçado e o rouco e uma pronúncia sabiamente cirílica que nos vai alegremente dando conta das novidades do ex-bloco soviético.
- Aquele que foi enviado pelo PCP português para uma visita de estudo à então URSS e nunca mais regressou ?
- Sim, esse mesmo!!!
- Agora está na blogoesfera: aqui!

Coisa feia, a minha preguiça...

Para avaliar do nosso grau de loucura...

A Flash passou-se e sem remissão! Normalmente ignoraria o assunto porque criticar os dislates das revistas cor de rosa é assim como que bater no invisual com a própria bengala. Mas desta vez, valha-nos Santa Bárbara porque troveja a sério! Na capa, a revista anuncia que Cinha Jardim, depois «de segredo absoluto» vai ser comadre de Marco Paulo e avó em Janeiro. Sem aspas em avó, repare-se. Lá dentro, depois de repetir o título, a revista explica: «Após o fim do casamento que durou pouco mais de dois meses com Boris, o cão do ex-de Pimpinha, Juanita está grávida de Strong, - cão de Marco Paulo, com que casou em segredo no passado dia 8». O artigo termina depois assim: «O parto, a ser normal, acontecerá na casa da Lapa». Até concedo que o parto possa ser normal. Tudo o resto é que não é com certeza.
in corta-fitas

Ele há palavras sábias...

Ainda o SLB e o Guiness Book. A afirmação pelo tamanho é no mínimo duvidosa.

Tamanho nem sempre é grande coisa, e querer sempre estar “onde está toda a gente” é definitivamente coisa pequena.

in Corta-fitas

domingo, novembro 12, 2006

À cabeceira

Literatura para o Inverno, apesar do Sol reinadio,
Bill Bryson é um dos mais conceituados escritores na temática de viagens. Com um vivência entre a Europa e os EUA, transmite-nos com extrema facilidade e uma extensa dose de bom humor e crítica arguta, as vivências que vai passando por esse mundo fora.
Deste autor, recomendo:
"Nem aqui, nem ali - a Europa de Estocolmo a Istambul"
"América - Notas sobre um país grande"
"Na terra dos cangurus"
Mas certamente e à medida que vá lendo os demais já publicados, aqui deixarei devida nota.
Este fim-de-semana tive a fortuna de encontrar um livro que desconhecia ter dado à estampa, da autoria de Alfredo Saramago, o único e verdadeiro historiador de gastronomia cá do burgo e acima de tudo, além de gourmet, um apaixonado pelos bons prazeres da vida.
Impressiona-me não só a proeminência do porte, mas a desassombração com que gere este seu gosto por tudo e que é bom e gulosamente pecaminoso. Ainda que conclua sempre e com acerto, que não come muito mas apenas bem.
É um livro que se lê num ai, e eu dei por mim a meio do dito e nem 24 horas passaram sobre a sua aquisição.
Editado pela Assírio & Alvim, é um relato de refeições com figuras conhecidas da sociedade portuguesa e é um livro que não se deve perder de vista. Um verdadeiro tratado sobre a importância da gastronomia nas nossas vidas e os sentidos que a mesma pode e deve despertar.
Um deleite para os sentidos e uma confirmação de uma ideia em mim à muito sedimentada. Há dois tipos de restaurantes que valem a pena: os bons que são poucos e que a minha condição de plebeu não permite reincidir amiúde e as tascas, que a preços mais comedidos fazem o milagre de, por pouco servir muito e bem, como é o caso exemplar da "Talha" em Borba que me continua a encher as medidas gastronómicas, sempre que por ali propositadamente aterro com a mais gulosa das intenções.
No meio, fica uma imenso maioritário e infeliz deserto que me lembra quão é bom comer em casa.
Dito isto, parece-me hora de aconchegar o estômago.

sábado, novembro 11, 2006

I am SIC(K) of it !

Jornal das 13h da estação de Carnaxide,
À falta de melhor opção e agradecendo o facto privilegiado de poder almoçar em casa, dei por mim, entre o espantado e o incrédulo, a seguir um trailer noticioso que pretendia dar conta do facto de uma escola secundária de Loures ter (em virtude da greve geral, mas pouco) encerrado o bar por falta de funcionários.
A notícia já é, por si só, uma coisinha de trazer por casa, que na minha modesta óptica, nem direito dava a chamada em página interior num desses jornais pseudo locais de distirbuição gratuita. Mas pelos vistos o critério da SIC é outro. Mas nem por isso melhor, infelizmente.
A notícia em causa dava conta de uma manifestação espontânea dos petizes, que como é de imaginar, disseram tudo e mais um par de botas, mas nada verdadeiramente com nexo. Assim, com direito a directo e tudo, lá foram aqueles aplicados estudantes entusiasticamente dizendo que a situação era inadmissível, estúpida e coisas aparentadas. Tudo porque a escola não conseguia assegurar o funcionamento do bar. Porque, afinal, a fome reinava abundantemente em moldes idênticos ao do transbordante caudal do Tejo por estes dias de cheias. Que a comida da cantina não era boa e que queriam era sandes e desde as 8 da manhã que não trincavam nada.
Estúpido não é dizer patacoadas sinceras como as que por ali alarvemente se disseram, mas sim aceitar que a SIC não tenha melhor para encher quase 4 minutos do jornal da hora de almoço (e acreditem que assim, 4 minutos é muuuiiito tempo!!), se não com uma rábula tão decadente e non sense como a que observava estupefacto.
Disto tudo, tirei a rápida e sapiente conclusão que andava enganado quanto ao ainda algum capital de confiança que na SIC depositava. Assim e em acto contínuo, decidi que a bem da nação era hora de cortar o mal pela raíz e não dar mais lugar à desilusão: mudei para a TVI. Aí já sei com o que conto e por isso mesmo, segundos depois já o OFF da televisão tinha entrado em acção.
Afinal, a hora da refeição é uma hora sagrada, sobretudo quando feita pela minha douta mão.
bon apetit !

sábado, novembro 04, 2006

Descubra as diferenças...

Há um ano foi assim... aparentemente formal (na medida das possibilidades) !



Este ano, a comemoração foi mais em estilo "Árabe lava mais branco"!

Für Elisa !!!


Este é sem dúvida um requiem feliz. Foi com genuína alegria que recebi a notícia de que havia entrado na vida profissional e logo para uma empresa na qual ambicionava tanto trabalhar, a GFK España.

Para quem não sabe, a GFK é uma multinacional de estudos de mercado, a qual, em Portugal detém, por exemplo, a Metris e a Intercampus, mais mediáticas pelas sondangens eleitorais em períodos de campanha.

Gere também a conta da PT - PortugalTelecom, pelo que, espero visitas assíduas a Lisboa, ok?

É que, por aqui, estamos ansiosamente à espera do já quase mítico Louis Roederer Cristal Rosé 1999...

Que haja suerte, malandra !!!

terça-feira, outubro 31, 2006

É arte, filha! É arte...

Buenos Aires não tem o encanto natural do Rio, nem tão pouco a imponência quase majestática de Paris, mas é uma daquelas cidades em que certamente não me importaria de viver. E dizer isto é dizer muito, acreditem.

A Argentina e Buenos Aires em particular, goza de uma centralidade invejável no contexto da América Latina, com um sem número de pontos de interesse nas proximidade (ainda que quase sempre medido na unidade do milhar de Kms, mas é tudo uma questão de escala)

Buenos Aires podia ser à primeira olhadela, um verdadeira cidade europeia, com um trânsito infernal, um centro financeiro pujante, recheado dos respectivos adereços humanos afeiçoados ao dress code globalizado, a que não faltam a maioria dos tiques de uma qualquer capital europeia.

E esta percepção é tanto mais estranha, quanto levamos na bagagem a expectativa de uma Buenos Aires com um certo perfume, muito salero e uma áurea...de tango. Em resumo, uma expectativa de singularidade pela positiva ou se quisermos, uma cidade muito particular devido a determinados elementos culturais.

Importa dizer que a ciudad porteña não encerra, que eu me tenha apercebido, um monumento que possa ser tido como um verdadeiro ex-libris na qual se apoia o apelo turístico. A não ser o tango, claro, mas a esse lá irei no post seguinte. E este facto - a ausência de um farol em que gira a cidade e o turismo - permitiu, certamente, obter uma cidade mais homogénea, com necssidade de aproveitar o que de bom tinha, para assim criar uma malha desconcentrada de locais de interesse para os nativos e para todos quantos a visitam. E neste ponto, a capital federal é uma agradável surpresa, fazendo da diversidade uma alavanca importante para a sua dinâmica corrente sanguínea.

É me difícil saber por onde começar, porque fiquei sensibilizado pelo conjunto, mas com nada em particular (pelo menos desmesuradamente). Estarei a ser algo exigente nesta conclusão, até porque se houve algo que me deixou espantado foi a proximidade da cultura com a população. Bom, não digo que a população seja, em geral, de uma grande bagagem cultural, mas a verdade é que o Estado proporciona as condições mais que básicas para que qualquer um a obtenha (pelo menos na capital).

Domingo, dia 15:

Tomo o duche da ordem e composta na medida do impossível, a população capilar, saio da gaiola em direcção a um conjunto de alvos não sistematicamente eleitos. Já pasava da hora de almoço e o sol havia tido a gentileza de me fazer companhia neste périplo federal. O bairro de La Recoleta estava radioso e tudo à minha volta combinava com a Primavera (o que nos dias de hoje já não é fácil). Imagino que logo, logo o sol tenha ficado irritado, porque eu, afinal, depois de lhe agradecer sentidamente a companhia que tanto me honrava, enfiei-me num calimero estrelado em direcção a um shopping. É verdade... deixei-me tentar por essa triste tentação global e agoniante. Era tarde para restaurantes à séria e se há coisas que gosto de comparar, os centros comerciais são uma delas.

Depois de paga a corrida, entro no dito. Com um aspecto exterior visualmente agradável, mas não muito longe do típico, dei por mim a pensar que podia estar em qualquer mega superfície europeia. Os conceitos são efectivamente globais e nada registei de relevo que os permitisse distinguir dos irmãos e primos que por cá alegremente pululam. Feita que estava esta importante observação científica, dirigi-me à zona de restauração (que afinal era o meu propósito mais básico) e escolhi rapidamente de entre a panóplia que se imagina não muito fantástica, um moderno restaurante do género comida no tabuleiro, que não sendo de levantar uma plateia, serviu perfeitamente o propósito de amansar um estômago que clamava por atenção.

Feita a penitência a este tão vital orgão e depois de despejar 600 ml (sim, leram bem) de coca cola diet (não imaginam o quanto disto se bebe por aqui, e é a garrafa mais pequena disponível) saio nervoso e ansioso por reencontrar o meu compagnion de route que havia deixado à porta, o Sol.

E os amigos são assim, perdoam tudo e mais uma vez pedindo desculpa pela minha falta de chá, segui com ele rumo ao museu Malba. A pé, porque além de bastante próximo, é tudo plano o que facilita e bastante o exercício pedonal. Estava e não me canso de frisar um dia de luxo, daqueles que imaginamos nos sonhos e não vemos na realidade. Quer dizer, ver até vemos, mas não os conseguimos sentir e é pena que mais das vezes assim seja.

O Malba é um museu de arquitectura moderna, construído acerca de 4 anos numa zona extremamente desafogada da cidade. Goza, só por isso, de uma involvência agradável a que acresce uma arquitectura convidativa, não demasiado espalhafatosa e tão pouco opulenta. Dir-se-á que é, em ponto bastante reduzido, o nosso CCB, com diversas exposições temporárias ligadas a artistas maioritariamente contemporâneas, como uma forte e natural inclinação para os artistas sul-americanos, de onde, obviamente, se destacam em quantidade os naturais das pampas.

A um preço convidativo - dez pesos - tem-se acesso a todas as salas e exposições existentes. E que valeram sinceramente o custo. Podia assinalar diversos artistas que me agradaram pessoalmente, mas apenas destaco (injustamente) um dos mais conhecidos - Botero.

Vista em breves minutos a livraria do Malba, dirigi-me ao alçado oposto do museu para uma merecida copa de viño na esplanada da cafetaria, porque afinal, o meu amigo continuava aí fora à minha espera e eu queria disfrutar ao máximo a sua companhia.


Retemperado o espírito por mais um Malbec de Mendonza, apontei baterias no meu improvisado e minuscúlo mapa citadino ao Museu Nacional de Belas Artes, que fica na mesma avenida, mas um pouco mais distante. Ainda a pagar pelas diatribes da noite anterior, aconselhou-me o bom senso a pedir boleia a um calimero estrelado, o qual com a diligência a que estava a habituar-me, me deixou prontamente à porta do meu destino.


O Museu Nacional de Belas Artes é um edifício de dimensões generosas, cor de vinho tinto, certamente em homenagem ao Deus Baco que permitiu que tamanha benção vitivinícola floresça por aquele país. Não se trata de um edifício imponente, novo ou especialmente bonito. É apenas o principal museu de pintura do País e nessa medida impõe-se mais pelo seu interior do que pelas linhas exteriores que sobressaem à chegada.

Às portas do Museu encontrava-se uma pequena multidão tão típica de um Domingo de sorriso rasgado pelo Sol. Intrigou-me aquele buliço, mas, para meu espanto, concluí que não estava perante umas mãos cheias de excursionistas arrivistas do outro lado do mundo, mas perante argentinos que haviam eleito, entre o cardápio disponível da oferta de Buenos Aires, uma ida ao Belas Artes. E eu, não posso concordar mais, foi uma excelente ideia.
Decido entrar nas portas simples do museu, algo desconfiado e hesitante relativamente ao ritual de bilheteiras e por aí fora. Enfim, saber onde é. Qual a fila para isto, qual a fila para a outra exposição.
A entrada nada tem de magnânime ou de esplendorosa, apenas uma escadaria que se abre para o primeiro piso, portas de vidro abertas do lado esquerdo e direito, duas ou três vitrines repletas de livros biográficos de diversos artistas e um balcão simplório, onde eu supunha ser a dita bilheteira, onde pontuavam duas funcionárias de idade respeitável, sempre vigiadas pelo olhar atento (mas certamente confuso de um segurança).
Havia algo ali que não batia certo com a ideia do principal museu de Belas Artes do país. O hall de entrada estava repleto de famílias, crianças e jubilados que deambulavam alegremente da sala da esquerda para a direita e vice-versa ou simplesmente se quedavam reinadiamente em charlas públicas que faziam do recinto uma qualquer ante-câmara de um derby River Plate Vs. Boca Juniors. Tentando manter o pé perante aquele súbito festim que decorria num local que tinha na minha estreita mente, como sendo um sítio de recato e até algum pudor e respeito pelos artistas cujas obras ali estariam expostas, verifiquei na prática e alfo receoso que o segurança de serviço me puxasse literalmente pelos colarinhos que o Museu era de entrada livre.
O chão em tacos de madeira apresentava-se gasto e bastante riscado. Sinal não só do longo tempo passado desde a sua colocação, mas também da falta de manutenção, mas, acima de tudo e mais importante do grande uso que lhe era dado, fruto da grande afluência que o museu merecia.
Ainda estranho por aquela minha entrada esquiva e aleatória na sala do lado direito da entrada, fui perseguindo as obras expostas e à cadência natural do meu limitado conhecimento da pintura, fui ficando cada vez mais maravilhado com a riqueza do espólio que ali se encontrava permanentemente exposto. De Manet a Monet, Picassos a Gaugin, Van Gogh a Van den Velde, à riquíssima escola italiana e espanhola, não descartando o mais delicioso e não menos surpreendente Chagall, com a obra "Amantes".
Não estava de facto crédulo no que os meus olhos viam. Há dois minutos atrás estava num apinhado átrio fesitvo, mais condizente com o ambiente descontraído (até demais) de um qualquer tasco típico de bairro, em que os clientes se sentem como em casa e por esse motivo, se comportam em público, como o fazem na privacidade dos seus lares. Para o bem e sobretudo para o mal. E agora, driblado apenas um segurança passivo, estava perante verdadeiras obras de milhões em salas repletas de crianças, carrinhos de bebé e respectiva parafernália, sem que fosse notória qualquer segurança especialmente dotada para fazer face a menos honrosas intenções.
Foi no meio daquela alegre perplexidade que percorri em cerca de duas horas e meia a totalidade das salas do Belas Artes. De artistas europeus a mostras específicas da América Latina, passando ainda pelas civilizações pré andinas, muito há para visitar neste Museu que, como já perceberam, só posso viva e entusiasticamente recomendar.

Concluí desta minha experiência e confirmei depois junto de porteños, que a cultura na Argentina tende a ser gratuita e que há um grande esforço para que a mesma seja tendencialmente gratuita, possibilitando o seu acesso sem a ancestral desculpa da vertente financeira que a sua aquisição implica, não esquecendo as muito debilitadas condições económico-financeiras em que ainda se vão vivendo naquelas terras.

Há nisto tudo um pormenor delicioso, o qual afortunadamente presenciei assim que entrei no Museu propriamente dito. Uma criança dos seus 5 a 6 anos, visivelmente confusa com uma grande escultura de madeira (manifestamente abstracta e de entendimento dúbio) que se apresentava diante dos olhos, pergunta à mãe atarefada em manobrar acrobaticamente o duplo carrinho de bebé que levava entre mãos:
-Ó mãe, o que é isto ???
A mãe, notoriamente atrapalhada com a pertinência da questão, fazendo-a provavelmente recordar o igual embaraço de que foi vítima quando teve de explicar a proveniência dos bebés, respondeu entre o indecisa e o peturbada:
- É arte, filha ! É arte...

É isso mesmo. Delicioso.

sexta-feira, outubro 27, 2006

The yellow submarine...

Existem, como todos sabemos, mil e um critérios para tentar definir uma metrópole. Todos eles aceitáveis mas todos eles naturalmente limitados e insuficientes por si só. Assim, dentro desta vasta panóplia de possibilidades que se me abriam no horizonte turvo desta 6ª feira à noite, acabei por eleger o critério dos táxis e do trânsito na capital das pampas para dar uma ideia, no mínimo singular, do País.
Dirão uns que é descabido, mas se há coisa que no meu espírito de viajante me salta rapidamente à memória nos sítios por onde passo, é certamente a relação dos táxis e do seu respectivo motorista com a minha pessoa. Parece ridículo, mas vejam lá se não é este dos primeiros cartões de visita que são mostrados a qualquer forasteiro paraquedista?
Poderia dizer que Amesterdão, a esse nível, é uma cidade em que os taxistas brasileiros (muito amigos de ajustar as corridas tipo feira do regateio, indiferentes a qualquer táximetro -se é que chega a andar ligado) parecem uns autênticos meninos do coro. Os fogareiros são exclusivamente da zona do médio oriente: Afeganistão, Palestina, Paquistão, etc, etc, que, para além de verdadeiros larápios à mão armada e a quatro rodas, ainda nos obrigam, como sinal de penitência de acedermos ao seu negócio usurário, a "papar" as belíssimas músicas da saudosa mãe pátria que só um macho assumidamente poligâmico como os daquelas paragens conseguem provavelmente entender e apreciar. Pareço retrógado? Não ouviram certamente as ladaínhas em questão.
Dito isto, apenas acrescentar que adorei a cidade "vermelha" à excepção da zona da cor em causa. De resto, cinco estrelas e claro, uma bibicleta para fintar aquela tropa maldita.
Buenos Aires é uma cidade, à semelhança de Amesterdão, completamente plana, como que esquadrinhada de forma tão uniforme, que uma mesma rua pode atravessar numa recta quase perfeita a cidade de uma ponta a outra. Portanto e ponto nº 1 : de táxi só se anda com o nº de porta da rua desejada ou com a rua que com a carretera de destino se intercepciona. É que não é raro as ruas porteñas terem para cima de de dez milhares de números de polícia.
Os táxis são pretos com tejadilho amarelo-ovo de outros tempos. Na sua maioria bastante antigos, a combinar com os tempos idos em que as gemas eram verdadeiramente amarelas, deixando uma marca bem notória das agruras económicas de que o País ainda vai, a pouco e pouco, tentando sair.
Há uma coisa que é quase certa. Apanhar táxi em BA é como querer tapas ou cañas em Espanha. Em toda a esquina está um. Mesmo que não o esteja a ver. Mas vai estar, seguramente. Não me atrevo a lançar números, mas são muitos milhares. Recordou-me uma cidade nos antípodas, Nova Iorque, é que, de facto, em 5 carros, 3 ou 4 são calimeros com a gema de fora.
Os taxistas são gente, em geral, bastante potável e não lusitana e excessivamente conversadores. Sobretudo, são profissionais e não demonstraram, com uma desafortunada excepção, que a ideia (deles) é levarem os clientes a dar uma "volta" pela cidade. Não, vão directos ao destino pelo caminho mais curto. Acreditem que passados que estavam uma dezena de dias na cidade e cerca de 50 corridas depois, já estávamos aptos a controlar o próprio trajecto. Mas a questão verdadeiramnete não se punha.
Este é, provavelmente, o meio de transporte mais utilizado em Buenos Aires. A este facto não anda dissociado o preço bastante convidativo, sobretudo para quem vem munido de dolares ou euros. Mas, ainda assim, de valor razoável para os nativos. Uma corrida pode quedar-se por menos de 2 euros. Se tivermos em conta que cá no burgo só para sentar na napa plastificada e igualmente bafienta, nos pedem quase € 4, fica-se logo com vontade de trocar de estofo e comprar passagem para Buenos Aires.
Em resumo, para além do Metro com uma linha cujas estações merecem visita turística (julgo que é a amarela...) o táxi é o meio ideal para deambular pela cidade.
O trânsito da ciudad porteña rege-se por regras absolutamente non sense, em que pontua de forma destacada, a regra da inexistência delas próprias, tal é, à primeira vista, o caos automobilístico em que se transformam as principais e mais largas artérias da cidade.
Assim, não se chega a perceber qual a justificação para a marcação de faixas de rodagem no piso, dado que, de forma unânime e pelos vistos com convicção de obrigatoriedade, das mesmas fazem os automobilistas tábua absolutamente rasa.
A ideia de circulação tem um princípio simples e básico: não bater! A partir daí vale tudo e a condescendência dos convivas motorizados aconchega as diatribes que os vizinhos, em dinâmica de cascata, vão desenrolando nas barbas do "nosso" yellow submarine.
Há algo nisto tudo um pouco terceiro mundista, mas não é menos verdade que, vistas bem as coisas do banco traseiro dos chaços em que nos arrastamos, toda aquela aparente confusão kamikase é gerida com uma calma conventual que deixa qualquer um nativo do chamado 1º mundo verdadeiramente envergonhado.
É que, entre todo este ziguezaguiar, não há lugar para buzinadelas estéricas próprias de quem "corre" atrasada para fazer umas unhas à francesa na Nails Us (será este o nome? é que eu tenho uma aversão a Franceses, por isso perdoem-me lá este provável lapso) e que, posta essa ou outra urgência de idêntico calibre, perdem as estribeiras, para não dizer que estragam o verniz. E não digo porque o verniz no nosso trânsito já estalou vai para muito tempo e o que nos resta agora são mesmo as unhas (cada vez mais ratadas) para ir tentando tocar a guitarra cada vez mais desafinada em que se transformou o quotidiano.
Mas não divagando mais, nota-se que no meio daquele salve-se quem puder, os condutores deixam os típicos espertalhões "meterem-se à má fila", que é como quem diz, toda a gente. Sem que com isso se ponha em causa a virilidade, a honra e a dignidade do condutor ultrapassado pela direita, entre um lancil lambido e um retrovisor apenas esquivo no último segundo da passagem de mais um artista automóvel.
Em conclusão, aquilo que à partida parece ser um caldeirão sem rei nem roque, é serenamente gerido com tal mestria e sem stress que eu, do alto da minha vasta cabeleira, tiro o meu melhor chapéu de côco.

sábado, outubro 21, 2006

Cá estou eu de volta ao burgo...

É verdade, estou de volta. Custa-me sempre partir, mas agrada-me sempre chegar à Portela. Não que me agrade especialmente o aeroporto e os seus pastelosos serviços de handling, nem tão pouco a chuva diluviana que se abateu sobre a capital, a qual, provavelmente, tinha por único escopo recordar-me que na capital federal de onde provinha, o tempo era ameno, a chuva escassa e oportuna (ou seja, nunca dava por ela) e o próprio Sol fazia questão de pousar discreto sobre a cidade porteña, sem vergonha, mas tão pouco abusivo e que a corrida do táxi ia ser a injecção letal que me traria de volta à nossa realidade.
Foi assim que me fiz a terra, entre executivos de ar bastante "lavadinho", cuja nacionalidade era desde logo identificável, na sua versão masculina(quanto mais não fosse), através do logo das camisas "P&H" Pedro del Hierro (que, note-se, não são nem bonitas, nem baratas;apenas espanholas). Para já não falar do gel, que, ando cá desconfiado, deve descair mais para a brilhantina das drogarias de outros tempos, mas que pelos vistos, apesar de gasta em idade, não perdeu em graça social. São gostos. Bizarros, é certo...mas gostos.
A viagem havia sido curta, mas turbulenta até demais. Tempo apenas para uma leitura rápida na literatura matutina bastamente oferecida, porque, afinal, o avião ia a meio gás, não havendo, por isso, necessidade de rogar à altiva hospedeira de rodillas en el suelo, por um pasquim que não fosse o jornal oficial da Iberia.
Não, desta vez havia literatura em fartura e aproveitei logo para antecipar as notícias portuguesas, lendo as ditas espanholas. Passo a explicar, li a dado passo do diário ABC que as empresas eléctricas espanholas reclamavam por um aumento da electicidade na ordem dos 20%. Pensei para comigo: "Portugal já está na calha para igual chacina em beco escuro (sem direito a electricidade, claro está)".
Infelizmente, a minha capacidade de antecipar estas "santas" e lusitanas importações, quase poderiam fazer de mim um tarólogo de peito feito, com direito a aparição televisiva nos horários cujo target é de insónias, fazendo feroz concorrência à "pequena" curvilínea que lá vai desfiando o seu corpinho a bem da espantosa geringonça que ainda há-de fazer aos seus clientes aquilo que muitas e boas comezainas não lograram até ao momento obter: gastar uma fortuna, sem qualquer prazer em troca e ainda com menores resultados.
Mas não. Não chego para tarólogo, porque, infelizmente nos dias que correm, não é preciso saber ler as cartas e outras bujigangas do género para saber que tudo o que de mau se passa com os nossos vizinhos acabará, mais cedo do que mais tarde, por aterrar em Portugal com turbulência similar à do meu vôo Madrid-Lisboa. Aliás, ultimamente adequa-se como uma luva o velho dito luso (do qual eu até nem sou fã) segundo o qual: "De Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos". Particularmente agora que a Moncloa está entregue a um verdadeiro desgoverno, o perigo do vento que sopra de Este toma proporções bem mais preocupantes. A culpa não é da vizinhança, é desta farsa global a que ultimamente se agarram cada vez mais os políticos segundo a qual a legitimação das medidas políticas internas começa e acaba simplesmente na aplicação de medidas similares em diferentes países da União.
Três dias depois aí estava a "bomba": a electricidade iria subir 15,6%. Fiquei indignado não pelas consequências práticas da notícia, mas pela previsibilidade que a mesma revestia. Pelo menos, que fossem originais, mas não, aí está uma inevitabilidade. E lá véem os arautos da economia: "É assim, vejam em Espanha, por exemplo!" Só não foi assim, porque o Sr. Secretário de Estado da Energia logrou fazer bastante pior. No fundo, desta feita mudou-se de carrasco, a política do copy-paste é que continua e continuará, infelizmente, a ser a mesma. E agora, um aumento de cerca de 6 a 8%, até parece, aparentemente, uma boa notícia. Há coisas fantásticas, não há !?!?!?
Era suposto deixar umas notas sobre as terras porteñas, mas está visto que não será hoje. Simplesmente, foi mais forte que eu.

domingo, outubro 08, 2006

Vuelvo pronto...

Me fuí de vacaciones, pero en un ratito estaré de vuelta!

Pasarlo bien, boludos !

segunda-feira, setembro 11, 2006

Há um ano foi assim...

O tempo na Penha Longa estava húmido e parcialmente encoberto, ao bom estilo de Sintra. A chegada do agente queria-se bem discreta e assim foi (tirando uns óculos-mosca a despropósito; enfim caprichos de profissão)... Havia que avaliar o terreno e gizar um plano certeiro.


A tarefa não se avizinhava fácil e assim recorreu-se de um pouco de meditação. Concentração era a palavra chave.

Mas a socialização não estava fácil, de onde decidiu beber para "aquecer" o espírito.

Missão cumprida,

Os efeitos foram quase imediatos e bastante notórios.

Daí que, escassos minutos depois, rapidamente prestou vassalagem ante a assembleia reunida. Um momento alto de emoção.


Agradeceu com garbo a investidura perante Sua Majestade a rainha da Noruega.

E procederam à solene vénia final.

Que começasse o Baile!!!

Havia sincronia...
E os mais incautos, diriam que havia umas mãos malandras, mas esses pensamentos só mesmo para gente incauta...tudo no maior respeito.


Tentou outra cúmplice (havia que angariar um vasto capital de confiança)


Uns passitos adelante...

...e outros tantos para trás.


Agora de lado.


Como é manifesto, a missão estava cumprida...

Moral da história: a vida de agente secreto infiltrado é dura...mas não me queixo.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Still going on...

Desenganem-se todos os quantos pensavam que o Verão havia já chegado os seu final. Não, não são só as altas emperaturas que o atestam, é muito mais do que isso.
O Puro Beach em Marbella irá realizar uma festa verdadeiramente apetecível, num ambiente de irrepreensível qualidade em que a sofisticação e uma nota hippie-chic tomará, uma vez mais, conta do ambiente numa noite que promete ser em cheio, não fosse a circusntância acrescida de igualmente cheia se apresentar a Lua.
Para quem não conhece o Puro, dir-se-á que esta é a segunda criação do conceito pure, na senda do sucesso do Puro Hotel na ilha balear de Mallorca. Agora na versão lounge pool & bar, junto ao mar e bem arredada do caos urbanísitco que mina, vai para demasiados anos, esta estância balnear andaluza.
E Puro afigura-se um nome apropriado, tal o cuidado posto na qualidade visual do cenário envolvente e a sensação de serenidade que o local transmite. Um autêntico oásis num deserto de cimento de uma magnitude tal, que torna até difícil qualificar sem praguejar.
Depois de uma maratona judicial que me levou a uma quase completa exaustão mental, reconforta-me perder o olhar nas excelentes fotografias do flyer electrónico que simpaticamente recebi, a fim de me recordar que será um evento a não perder.
Não vou. Mas já me aliviou a carga negativa e tensão de um dia repleto de inenarráveis diatribes profissionais e isso, tenho de agradecer ao bom gosto de quem ainda nos sabe fazer sonhar.
Aqui fica o link do flyer da Full Moon & Möet Party, a ter lugar hoje no Puro Beach de Marbella:
Para quem não conhece o sítio da Puro, aconselho uma saltada:

domingo, setembro 03, 2006

September rain

É verdade. Para mal de muitos, trizteza de outros e alegria incontida da minha pessoa, cá estou de volta para a reentré deste humilde estabelecimento.
Agosto está vencido e o balanço feito. Mas para felicidade de todos, poupo-vos a maçada dos fundamentos em que assenta este meu regresso.
É, assim, hora de voltar. Voltar a trabalhar, voltar a pensar, retornar a viver. As férias são um pouco isso, um pit-stop nesta maratona terrena a que chamamos vida. Mas aqui, ao contrário do automobilismo, querem-se paragens mais demoradas do que rápidas.
Não admira, pois, que por estes dias, o que custe a muito boa gente seja retornar à vida real. À vida dos impostos e dos encargos sociais, do défice que não é só um simpático e cartoonesco monstro das bolachas, à vida da precariedade e do desemprego, à vida do desenrasca e do aguenta, à vida dos esquemas e das trapalhadas da real politik, do patrão que não é empresário, do empregado que não é trabalhador, passando pela vida do Avante que não é comunista mas apenas consumismo festivaleiro e à Floribela que afinal é rica, rica em ouro e pobre, pobre em sonhos. Em suma, à vida tal como ela é e não como ela devia ser.
Feito este ponto de ordem à mesa, considerem-se genuinamente cumprimentados e sejam todos muito bem-vindos a mais esta etapa da viagem de regresso à vida.

quinta-feira, julho 13, 2006

Para balanço

É verdade, há muito tempo que não fazia uma actualização a esta "casinha" abrigada de ventos e tempestades. E já me fazia falta aqui voltar. Senti-me mesmo mal por não o fazer durante uma série de dias seguidos. Não que alguém ficasse triste ou lamentasse esta temporária ausência, mas porque eu próprio me sentia em dívida para com a minha criação blogoesférica. E é essa, no essencial, a razão que me fará voltar: um compromisso meu para comigo mesmo. Nada mais (e já não é pouco).

Nunca cheguei a explicar os fundamentos que me conduziram a erigir este postigo cibernético. Mas parece que se impõe fazê-lo por estes dias, como poderão perceber mais à frente. É, pois, chegada ahora

O blogue aqui em causa tinha, primeiramente, uma finalidade despretensiosamente intimista, que resultaria na actualização quase diária de uma realidade futura muito distinta relativamente à que actualmente vivo e a qual, a meu ver, impunha a sua criação e desenvolvimento. Um capítulo novo que se abriria em moldes similares a um qualquer registo e apontamento de notas sobre uma qualquer viagem mais ou menos aventuresca, a léguas dos espartilhados horizontes que os pacotes de férias incessantemente oferecem.
Seria, por isso, o espelho da alma de um viajante, mais do que a de um turista. O retrato possível do seu sentir, das suas expectativas, das suas emoções, dos seus anseios e devaneios (mais destes últimos, suspeito...eheheh).

O tempo foi passando e construindo em cima dos seus ombros um muro que me voltava a retirar o horizonte anteriormente traçado como certo. Mas afinal, o certo não era verdadeiramente certo e este mudar de vida acabou mesmo por não ver a luz do dia.
O muro foi-se edificando, pedra sobre pedra, e eu fui paralelamente interiorizando que, afinal, este desafio não iria sequer sair do papel.
Já tinha um expectativa e uma enorme vontade de o viver. Não foi possível, nem sempre é, mas ainda assim fica a certeza de que independentemente do seu epílogo seria mais um desafio que, com maior ou menor dificuldade, saberia levar de vencida. Nunca foi diferente e estou convicto que assim continuaria a ser.
Às vezes, parece uma mera atracção pelo abismo, pelo desconhecido, por tudo aquilo que se esconde e que queremos descobrir. Sobretudo dentro de nós. E é precisamente aqui que estão as maiores e mais preciosas descobertas, não duvido.

Não que se tenham esgotado os desafios do amanhã, apenas e só que aquele que se vislumbrava no horizonte, passou a constituir pouco mais do que uma vaga e intermitente miragem da minha memória sobre algo que não foi mas podia e devia ter sido. É sobretudo isso que me custa.

Sendo os factos o que são e a vida o que dela vamos (ou não) fazendo, este meu olhar blogoesférico foi ficando esvaziado de sentido à medida em que este desafio se foi igualmente desvanecendo.
Aliás, foi nítido que, enquanto aguardava inquieto por aquilo que seria um exílio mais ou menos consentido, o conteúdo do blogue se foi tornando mais mundano e frívolo, mais atento a questões que à partida não pensei que pudessem vir a ser contempladas. Mas isso foi uma inevitabilidade face à inexistência de avanços na concretização do desafio que adivinhava como certo. Daí, à política, ao futebol, ao mundo, à boa mesa e às trivialidades foi um pequeno passo, não de mágico como o Deco, mas, ainda assim, um passo que me deu sincera satisfação pessoal.
É, pois, hoje este o dilema com o qual me debato: continuar ou não continuar? É que tudo começou por uma necessidade minha de o criar, uma necessidade assim mesmo: egoísta, a pensar em mim. E agora que se desvaneceu a sua causa criadora, apenas ficou o exercício da escrita (ainda que trolha) que se veio a revelar um vício que, sinceramente, me custa agora abandonar.
A ponderar...

terça-feira, julho 04, 2006

À prova de ressabiados, como eu...

Lourenço Viegas de sua graça, é actualmente o crítico gastronómico que mais respeito. "Conheci-o" pelas críticas quinzenais que dá à estampa no Jornal de Negócios à 6ª feira. Espírito livre e cáustico q.b., dotado de um azedume para dar e exportar, este Viegas é um ribatejano da mais pura cepa (já viram, estou a absorver a "nacionalidade" ribatejana). Do que leio da sua lavra, ressalta sobretudo a ideia de que não embarca em carnavais em que a qualidade da cozinha é relegada para segundo plano em favor de abstracções conceptuais de circunstância, como sejam as modas mais ou menos estéreis que muitas vezes "pegam de estaca" em muitas casas deste largo pasto.
O seu lema reflecte tudo: "Dizer mal para comer melhor". E estou completamente de acordo, o grau de exigência dos clientes é cada vez mais vulnerável a determinadas ondas de costumes e tiques sociais em nada sincronizados com a qualidade do serviço prestado nesses restaurantes. E menos condizentes ainda com os preços normalmente praticados.
Mas este Lourenço não vai em cantigas, e para ele o importante num restaurante há-de ser sempre e sempre a qualidade dos pratos que serve e não o conceito ou o status adveniente de comer por esses botecos. Acredito que seja não raras vezes demasiado assertivo ou pouco complacente com os ambientes que os owners sempre pretendem transmitir aos espaços que criam. Mas há uma coisa que é certa: a comida é o fundamental. E sem palhaços não há circo.
Tem prosas soberbas sobre vários restaurantes, das quais destaco a análise sagaz ao restaurante "A Travessa", com a qual, diga-se, não podia estar mais de acordo. Assino por baixo e em caixa alta.
Agrada-me sobretudo o facto de as suas perspectivas constituirem uma garantia de que não vou ao engano. Se diz que é bom (o que é raro), é porque roça a excelência. Caso contrário, é uma questão de baixar o grau de exigência que sempre imprime nas suas críticas e escolher livremente, tendo em atenção a maior ou menor relevância dos pontos fracos apontados.
É o caso, por exemplo, da sua mais recente crítica ao restaurante La Moneda (que passo a citar abaixo). Longe de ser um deslumbre, é um restaurante que não desmerece. Com um conceito visual bem cuidado e uma cozinha que se apresenta agradável à vista, aponto-lhe os defeitos similares que este mestre da crítica lhe reconheceu. Atraso no serviço e algum amadorismo ou ansiedade com que tentam conjugar uma infinitude de ingredientes (sobretudo doces) num mesmo prato. Acrescento-lhe um outro pecado original: o muito ruído que os comensais provocam numa casa que aparentemente se esperava de décibel mais recatado. Para não falar de um Catarina branco, que por razões várias e diversas, acabou por não dar a melhor maridagem a um jantar, ainda assim, de simpática memória.
Confirmo, por outro lado, o ponto forte: as sobremesas. Quer dizer, pelo menos o strüdel de maçã quente que me tocou em sorte meeira. Deu mesmo direito a juras de regresso só para dar largas a esta minha fraqueza pelo dito. Regresso quase tão lendário como o de D. Sebastião de terras mouriscas.
Última observação para dar nota que tudo isto se passou há muito, muito tempo, ainda o La Moneda era uma criança e a frequência não tão sexualmente diferenciada, como parece ser agora o caso. De qualquer forma, sempre será uma razão acrescida para se caprichar e ir deslumbrantemente acompanhado, por forma a evitar o "mau olhado".
"
La Moneda (Lisboa)
A má moeda. Uma vez tentaram vender-me um sofá por seis mil euros. Mas eu não estava a "comprar um sofá", dizia a arquitecta, estava a "comprar um conceito. Porque hoje um sofá já não é apenas um sofá". Pois não.Também no mundo da comida há muitos restaurantes que já não são apenas restaurantes. São um conceito. Invariavelmente ficam na moda, invariavelmente o serviço é demorado, invariavelmente a comida é uma porcaria, invariavelmente acabam por fechar.No La Moneda, o conceito é o “food and movement” (tipo McDrive ?!). Nas paredes são projectados slides de quadros e cadernos de viagem de artistas, "num ambiente que nos transporta para o imaginário de paraísos desconhecidos" – ou qualquer outra lamechice deste género que se pudesse ler na badana da ementa, ou naqueles textos de revistas e jornais que adoram promover restaurantes-conceito.E não há pior do que a mistura restaurante-galeria-de-arte, que parece, contudo, ir fazendo algum sucesso.Numa sala escura, bastante público sexualmente diferenciado e alguns casais convencionais. Destaco dois colegas de trabalho a fazerem jus ao conceito de food and movement. Primeiro, analisaram uns relatórios "lá da empresa" e ela fazia um ar interessado, rematando sempre o levantar de sobrancelhas inteligente com um "completamente". Ele explicava os números. Tal como tinham dito em casa, estavam num jantar de trabalho. No fim, sem papéis, e com algum vinho, a conversa era pegajosa, o copo circulava nos dedos e ela trincava o lábio enquanto o ouvia. Ele pagou. Adoraram o La Moneda e vão voltar. Mas não se lembram do que comeram. Mas eu lembro: cozinha do mundo, adocicada e a saber sempre a gengibre.Ceviche - que é um prato da América-latina, da costa do Pacífico, de peixe marinado em lima, cebola, coentros e tomate - levemente interessante, e desajustado na sala sombria; lombo de vitela com cogumelos portobello e crosta de legumes, criativamente chamado lombo-bello!, tenro mas sem graça, nem verdadeira crosta; um crepe malaio de corvina, gambas e gengibre e coco, enjoativo; corvina com escamas de cogumelos (a ligação peixe cogumelos corre quase sempre mal, e não foi esta que correu bem).No La Moneda, tenta-se fazer cozinha de fusão (que por esse mundo é tão novidade e tão na moda como o Renault 19 Chamade), mas faz-se cozinha confusão: exagera-se no doce, no número de ingredientes por prato, no querer ser diferente.As sobremesas estão um ponto acima do resto (aliás, li algures que o dono/cozinheiro considera mesmo que no seu restaurante as entradas e as sobremesas são melhores do que os pratos…): destaco a tarte de chocolate e a mousse de papaia com um bom gelado de manjericão e lima.O serviço é coerente: empregados bonitos, simpáticos e ineficientes trazem os pratos na hora certa. Ou melhor, uma hora certinha depois de terem trazido o anterior. E os preços são altos, mesmo se os não compararmos com a qualidade.Felizmente, a lei de Gresham não se aplica na restauração: os maus restaurantes acabam por se expulsar a si próprios. Como a loja do sofá dos mil e duzentos contos, que hoje é uma agência do Banif.Melhor: Sobremesas.Pior: A confusão de sabores.Pontuação: Sem estrela(Sem estrela - De incomestível a come-se; * - Bom; ** - Muito Bom; *** - Excelente; **** - Excepcional)La Moneda, Rua da Moeda, 1 C, Lisboa, Tel: 213 908 012, 10h00 – 02h00, encerra Domingo, aceita cartões, 35€/pessoa. "
in www.contra-prova.blogspot.com por Lourenço Viegas

sexta-feira, junho 30, 2006

A homenagem devida



A Fernando Ruas, o "pedradas"

quarta-feira, junho 28, 2006

O milagre da multiplicação...



Pronto, o erro está feito. Já comecei a escrever sobre o Portugal-Holanda. Eu não queria, juro que não, mas lá terá de ser. Tudo por causa da arbitragem do dito jogo.
Infelizmente, confirmaram-se uma vez mais as minhas terríveis suspeitas: a corda "parte" sempre pelo lado mais fraco. Que o mesmo é dizer, pelo lado do árbitro. O sr. Yvanov foi o elo mais fraco e assim sendo, coube-lhe a ele a sempre triste figura do carrasco da "batalha" de Nuremberga. Estava escrito, havia que se honrar a história e lá nisso fomos exímios e certeiros.

Mas voltando ao ponto "x" da questão, folclore tablóide à parte, a verdade é que muito podemos agradecer ao Sr. Yvanov. Bem sei que não expulsou o jogador holandês aquando da falta sobre o C. Ronaldo, mas a verdade é que o cartão amarelo era efectivamente a medida disciplinar mais sensata. Afinal, estávamos no 4º minuto de jogo e se fosse ao contrário, era o o bom e o bonito - excesso de zelo, etc, etc. O árbitro teve a melhor das intenções ao não querer expulsar o holandês, esperando (com ingenuidade, é certo) que o jogo não desaguasse numa assertiva batalha de ceifadelas, cotoveladas e cabeçadas, como acabou por acontecer.
O árbitro foi, acima de tudo, muito brando e comedido. Para ambos os lados. Se por um lado a Holanda podia estar com 10 desde os 4 minutos, não será menos verdade que o mesmo poderia e deveria ter acontecido mais cedo a Costinha e Figo. Para já não falar na entrada "tipo Jacky Chan" protagonizada por Ricardo Carvalho sobre Robben (ainda que antecedida de fora-de-jogo).

Todos estes factos para concluir que o record de cartolinas mostradas apenas peca por escasso. Podia ter sido pior, muito pior. E para mim, não há árbitro que resista às asneiras perpretadas pela nossa selecção. Só nos podemos orgulhar de uma coisa: mantivemos sempre o fair play. Pelo menos, na perspectiva formal, porque quanto ao resto, estamos conversados.

O que não seria de esperar era que fosse o Sr. Blatter a iniciar as hostilidades contra os seus próprios árbitros, no caso o Sr. Yvanov, justamente por este ter cumprido (ainda que pecando por defeito) as recentes orientações da FIFA no sentido de punir exemplarmente os jogadores faltosos, usando para o efeito um crivo bastante apertado. Esquece o Sr. Blatter que foi responsável pela actuação do árbitro, e que, mesmo assim, fosse ele mais seguidista dos novos mandamentos da FIFA e o jogo poderia nem ter chegado sequer ao fim por falta de quórum.
A tudo isto o Sr. Blatter foi indiferente e na sua superveniente e arrogante sabedoria, mostrou a fraqueza de carácter e prsonalidade que lhe vai dentro, dando o dito por não dito, qual pai que enjeita o filho de sua criação. Afinal, as regras definidas pela FIFA, quando postas em prática (ainda que só parcialmente) são desastrosas e prejudicam o espectáculo, segundo o Sr. Blatter. Mas a culpa é do Sr. Yvanov, esse sim, devia ter sido "amarelado". Amarelo de vergonha devia ficar o Sr. Blatter por dizer os dislates que diz, com a sua habitual leviandade.

O Sr. Yvanov foi um árbitro de bem, com erros evidentes, mas minimamente coerente e sempre orientado por tentar "agarrar" um jogo que foi explosivo, tudo tendo feito para não estragar o espectáculo. Mas foi inevitável, os jogadores não lhe deram objectivamente outra saída. E foi, dos que esteve em campo, um mal menor .

Virada esta página, espero que os guerreiros portugueses, verdadeiros lutadores durante a segunda parte do encontro, não tenham esquecido a arte que os notabilizou no Euro 2004: a magia de jogar futebol - e levem de vencida a selecção inglesa, sem necessidade de recurso à arte pela qual ficou conhecido Hulk Hogan, o Wrestling.

O fim de uma lenda






Com o encerramento da maternidade de Barcelos, não voltará a nascer nenhum galo por aquelas bandas.

segunda-feira, junho 26, 2006

Blogoesférico

A blogoesfera é um verdadeiro mundillo que merece ser descoberto. Há de tudo para todos os gostos. Destes blogues partidariamente alinhados e militantemente alimentados, a outros dedicados a causas concretas, passando ainda pelos monotemáticos na área da economia, sondagens, política externa etc.
Mas têm quase todos eles um denominador comum, o elevado cunho pessoal conferido pelo respectivo blogger. É esse o segredo do sucesso quantitativo dos blogues que diaramente dão à luz na blogoesfera. A visão objectivamente subjectiva que subjaz a cada um deles. Ou seja, a transparência de quem a priori não desconhece que está perante o teor de algo que corresponde a uma perspectiva das coisas, do mundo, do que seja e não à verdade ou à perspectiva oficial sobre determinado tema ou assunto. É isso, a blogoesfera é a resposta cibernética dos cidadãos mais ou menos anónimos ao poder da comunicação. O poder de serem potencialmente ouvidos, de poderem passar a sua visão e a sua mensagem. Poder de comunicação esse, que estava até ao seu aparecimento, praticamente confinado à oficialidade informativa disponibilizada pelos sítios mais ou menos institucionalizados.
A blogoesfera é o espelho do que é oficioso. E o oficioso é sempre múltiplo e quase sempre contraditório, para o bem e para o mal. Hoje, a partir de um blogue, é possível estar a par de toda a actualidade nacional ou internacional, na sua versão oficiosa, sem necessidade de aceder à pardaçenta oficialidade dos meios de comunicação tradicionalmente instituídos nas sociedades, que esconde muitas vezes o essencial e amplia o acessório. Convenhamos que os gabinetes de imagem e comunicação também precisam de ganhar a vida...e muito bem.
Há até bloggers que conseguem ganhar dinheiro com o assunto. Mas, no essencial, o objectivo primordial é o de serem "ouvidos". E pelos vistos são. Isto a julgar por uma recente notícia publicada no JdN, em que um pseudo guru internacional das relações públicas e comunicação chama a atenção ao business world para a crescente importância da blogooesfera e dos seus respectivos conteúdos na imagem das organizações que potencialmente os bloggers podem atingir. Chega mesmo a sugerir que é necessário monitorizar esse disseminado mundo bloguítico, por forma a garantir e assegurar uma mensagem positiva das organizações. Ora aí está um belo eufemismo: monitorizar. Se hoje por hoje fosse vivo, Hitler, no seu jeito ariano, mudaria concerteza a nomenclatura de "censura" para "monitorização". Afinal, entre um e outro vai um pequeno piaffé. E piaffés e outras "habilidades" eram mesmo a sua especialidade.
Tudo isto para concluir que a originalidade deste nóvel meio de comunicação reside na independência oficiosa posta por cada autor no seu blogue, dentro daquilo que se poderá apelidar de "deformada visão das coisas". No fundo, uma resposta aos meios políticamente correctos e socialmente assépticos, sem que tenha de ser necessariamente contra estes, mas apenas e só um meio alternativo de passar uma mensagem e uma visão que se quer rica em diversidade, a qual, por princípio, não padece do pecadilho original que a comunicação oficial hoje em dia representa - a altivez arrogante de quem pretensamente transmite a verdade.
Dito isto, fica por justificar o porquê da minha (ir)responsabilidade de criar este blogue. Mas isso sim, é outra história que fica para outro dia. Tudo a seu tempo.

O Porto revisitado

Isto é mau feitio, confesso: eu e o Porto, o Porto e eu. Há algo que não joga, há algo que não liga. Não tenho nada contra e muito a favor, mas ainda assim persiste um anticorpo mais forte do que a força da própria razão que me parece traçar o Mondego como uma qualquer linha de fronteira para lá da qual não devo passar. E porque não? Porque não sei. E quando não se conhece a causa, mais difícil se torna alcançar a cura, a sanidade, sei lá. Mas sei, no entanto, que já por diversas vezes a transpus e não me dei mal. Mas aquela linha imaginária, qual divisão do Tratado de Tordesilhas, mantém-se bem viva no meu mapa mental como área naturalmente a não "consumir". E contra a natural incorrigibilidade que acabo por cultivar, nem os factos são, por vezes, suficientes. E não me importo.
O que me importei mesmo foi de não ter ido ao S. João no Porto. Ainda não foi desta. Estava tudo apalavrado, e pelas palavras se ficou. É caso para dizer que quando um acordo se fica só pelas palavras, é porque não vale sequer a tinta das assinaturas. Provavelmente, foi melhor assim. Estava tão dividido como então o mundo em Tordesilhas. Essa divisão não durou muito e o meu tratado mental não terá certamente melhor e diferente futuro.

NOTA: Cidade envolta em controvérsias que quase sempre lhe são alheias, não fosse o seu maior ícone mediático ser quem é. À parte destes carnavais e futebóis, dois blogues (e respectivos links) sobre o Porto a merecer uma saltada:

http://outra-face.blogspot.com/
http://cidadesurpreendente.blogspot.com/

sábado, junho 24, 2006

Champagne for two, please!!!


LEIO entrevista a Hugh Grant e confirmo as melhores suspeitas. O rapaz é bom. Mais: o rapaz é uma instituição britânica que interessa preservar. A propósito do seu último filme, comédia soft sobre um solteirão vazio e egocêntrico que encontra redenção num menino pré-púbere com mãe depressiva (violinos, violinos), perguntam a Hugh Grant se ele, tal como a personagem, não tenciona constituir família. Hugh, 40 anos, com aspecto de 30, confessa que a ideia tem algum appeal. O seu irmão, aliás, já iniciou as hostilidades com mulherzinha e prole alargada. Mas ele, Hugh, ainda não. Por enquanto. Por enquanto, Hugh Grant prefere «tomar martinis no bar do Ritz». Eu repito: martinis no bar do Ritz. Lemos o que lemos e sentimos que a civilização está salva. A começar pela britânica.
CONFESSO que tive medo. Visitava Londres com regularidade e regressava positivamente horrorizado com a grotesca juventude inglesa, avessa ao sabão, à gramática e às maneiras. O caso, aliás, era tão grave que mereceu discussão alargada na imprensa. «Por que motivo os nossos jovens são tão repelentes?», perguntava Theodore Dalrymple na Spectator, aplicando as teorias de Lombroso à canalha doméstica e confirmando as teses do teórico italiano: os jovens britânicos tinham na cara uma propensão dramática para a marginalidade. POIS BEM. Hugh Grant é um sinal. Um bom sinal. E uma contra-revolução a caminho. As suas palavras, aparentemente banais, reflectem uma atitude. Grande parte da cultura de massas tende para a vulgaridade - e as novas elites, sobretudo as elites do espectáculo, sentem uma repugnância instintiva pela distinção. George Walden explicou isso num livrinho simpático, intitulado The New Elites, que aconselho: para ele, as novas elites são aquelas que, longe de constituírem referência para a manada, visam sobretudo confundir-se com ela, adoptando os seus reles comportamentos. Seria impensável que um outro actor de cinema - um Tom Cruise, um Brad Pitt - optasse por «martinis no bar do Ritz». Isso seria antidemocrático e antipopular, dois pecadilhos imperdoáveis nesta cultura adolescente e plebeia, tiranizada pelo inevitável impulso igualitário. Com Hugh Grant, não. Com ele, não há cervejas em discotecas pelintras. Mas martinis no bar do Ritz.
DEUS seja louvado.
in jpcoutinho.com
Prosa verdadeiramente soberba, esta do JPC. É, a meu ver, um dos grandes talentos emergentes no que à escrita concerne. Uma "cabeça" que é uma referência.
Nem sempre concordo com o que diz, felizmente. Para bem da minha sanidade mental (que, a propósito, já conheceu melhores dias). Mas reconheço-lhe o essencial: o humor, a sagacidade, a crítica social e a ironia ímpares que fazem dele uma figura incontornável nesta área. E agora pergunto eu? Qual área? Perguntar não ofende, o pior será responder. Aceito sugestões.
Nota: ao ler a zona assinalada a negrito, rapidamente me recordei de uma amiga (cuja identidade será preferível não divulgar) que nutre idêntico gosto por bares e esplanadas de hotéis tão simpáticos ou mais que o Ritz londrino. Basta que sejam simpáticos. Os espaços, bem entendido. É caso para dizer: "já são dois" e assim a civilização está mesmo salva meu velho JPC, tudo em nome da velha aliança luso-britânica. Tal como Adão e Eva, "crescei e multiplicai-vos". O bom gosto ficaria eternamente grato.

quinta-feira, junho 22, 2006

Fechado. Dirija-se à Assembleia da República mais próxima, s.f.f.

21 de Junho de 2006, 20:03 h - noticiário televisivo
Na ressaca da vitória lusa contra os do "chili" e não contra os chilenos, lá vai (durante o jogo-já somos 3, eu, a repórter e o presidente Cavaco...que não vimos o jogo) uma inefável repórter de rua à descoberta de "uma agulha num palheiro", que é como quem diz, à procura de uma Lisboa deserta. Contra-senso e paradoxo à parte, esta afã iniciativa deu de caras com uma figura pública ou pseudo-pública - Maria do Céu Guerra. Grita a repórter para os seus botões: Que furo jornalístico!!! Não me escapas!!! Emoções e ambições pessoais à parte, lá desbobina a senhora aquele arrazoado de perguntas típicas: não está a ver Portugal jogar? Mas não gosta de ver Portugal? e por aí fora...
A páginas tantas, tendo Maria do Céu Guerra respondido (visivelmente agastada, para ser simpático) que tinha estado nas Finanças a tratar de uma data de problemas e papeladas d´A Barraca, eis quando a ingénua e porventura estagiária repórter aproveita a dica para perguntar se os respectivos funcionários estavam a trabalhar. A "nossa" Maria do Céu Guerra, entre o mordaz e o sarcástico viperino respondeu qualquer coisa deste género (que espero ser o mais fiel possível aos factos) : "Bem... sim... estão lá todos sentados às secretárias a olhar para um computador... aquilo a que "eles" chamam trabalhar". Fico mais descansado, graças a Deus que foi às Finanças e não à Assembleia da República, senão é que ia ver o quer era trabalhar...para as audiências televisivas. (mas até pode ter razão, é que o desígnio nacional não passa infelizmente por S. Bento)
Mas nas Finanças, não. Nas Finanças não trabalham, sentam-se à secretária, apruma-se o monitor e aqui vai disto até à reforma (que se quer temprana). Foi uma grande cobardia o que disse e como o disse, uma pessoa profissionalmente respeitável, mas ainda assim, pura cobardia.
Antes era porque se agarravam aos papéis, uma burocracia infindável, etc, etc. Agora é porque se agarram aos computadores... Não há, de facto, quem nos possa entender. Nem o choque tecnológico nos salva, está visto e posto.
Para não me alongar em demasia (nem sequer devia ter começado), recordar apenas a esta prestigiada artista que aquilo a que "eles" chamam trabalhar, é nem mais nem menos, contribuir
para a percepção da receita fiscal que tanta falta faz (sobretudo nos dias de hoje) a este cantinho da lusofonia tão cheio de chico espertice e economia paralela. Receita essa que ainda há-de ir (mais do que provavelmente) em parte parar às mãos d´A Barraca, para que possa dar execução aos seus projectos artísticos.
Mas a cidadania em Portugal resume-se a isto: direitos aos cidadãos e deveres aos Estado; responsabilidades e culpas no cartório, aí benvindos a terra de ninguém. Preferindo-se sempre atacar pelas costas através de uma demagogia fácil sempre à mão, quem felizmente (porque foi um sofrimento) nem o jogo espreitou, porque afinal o computador não deixou. É pena e triste, sobretudo vindo de quem vem.
Compreendo agora, ouvida esta "farpa" caluniosa, que muito ignorante vá ao teatro, olhe para aquele espectáculo e exclame: Mas a isto é que "eles" chamam trabalhar !?!?!?!?
Não se preocupem, "alguém" há-de pagar !

quarta-feira, junho 21, 2006

Vidinha ribatejana

Volta não volta e os suspeitos do costume decidem organizar mais uma patuscada numa qualquer taberna da região escalabitana. Hoje foi um desses dias. O eleito, um tal de restaurante Ramiro, situado nas Caneiras, bem junto à margem direita do Tejo. Sítio tão sem graça quanto original pela construção palafítica a que a subida do leito obriga.
A ementa, prévia e criteriosamente escolhida pelos confrades, assentava basicamente num arroz de polvo, o qual segundo rezavam muitos, era efectivamente de excepção. Confesso que não me entusiasmei, afinal o melhor arroz de polvo é feito em casa pela senhora minha mãe. Com muito aprumo, paciência e esmero porque os homens lá da casa estão habituados ao melhor e por isso, exigência não lhes falta, o que lhes (nos) falta mesmo é o saber e querer fazer.
A dita tasca resume-se a uma grande sala em que, qual refeitório, trolhas e engravatados sem distinção "atacam" com assiduidade as comezainas que a cozinha, com mestria, prepara diária e indistintamente para uns e outros. Tudo isto para dizer que se está perante um ambiente perfeitamente banal no que toca ao "estar" e decoração (ou falta dela) reinante.
Mas isso são pormenores. O que nos levou àquelas paragens era mesmo o polvo e seu respectivo arroz e não os telhados típicos de um qualquer gimno-desportivo. E valeu a pena. A iguaria, cozida na hora, vinha malandra e saltitante, como é da praxe. No ponto "C" (de certo) de cozedura, equilibrado no sódio e puxado na malagueta, pedia a todos os santinhos um acompanhamento à altura. Por mim, era tinto (é um defeito, confesso), mas perante o resultado do plebiscito rapidamente improvisado, a escolha, face ao farto calor reinante, acabou por recair num branco da região de Santarém. Vinha da Gouxa de seu nome, algures oriundo de Alpiarça, apresentou-se bem fresco, frutado, ligeiramente gaseificado e muito guloso. Até demais, dirá quem comigo se cruza no pós-repasto.
Tudo isto para concluir que, embora Santarém não seja uma terra gastronomicamente muito dotada, o Ramiro (nas Caneiras) é, sem dúvida, um porto seguro onde acostar o estômago, quando este parece começar a querer desfalecer perante o triste panorama de garfo e faca escalabitano . De atendimento "terra a terra", simpaticamente informal como é norma ribatejana, esta casa tipicamente vocacionada para almoços, apresenta um sem número de outros pratos muito honestos na confecção (fataça na telha, etc) e sobretudo, muito conseguidos na sua relação com o preço. Especialmente para quem está habituado ao "assalto à mão armada" usualmente praticado por terras da capital, o Ramiro encarna certamente a figura bíblica do "bom samaritano", tal é a miséria do que pede em troca de tanto quanto oferece em prazer.
Dito isto e tudo somado, se querem deliciar-se com o melhor arroz de polvo já provado fora de portas caseiras, o Ramiro é opção certeira. Se fica fora de mão, então o melhor é falarem com a senhora minha mãe e marcarem, o telefone é o 93... queriam, não queriam? É bom, mas não é para todos, só para os eleitos...ou convidados.

Confirma-se, a verdade é como o azeite, vem sempre à tona...

"Se assim não fosse, o país ter-se-ia dado conta de um facto extraordinário. Qual seja o de o F. C. Porto passar a ter um equipamento cor de laranja. Rui Rio ganhou finalmente o seu combate.

Mais depressa se vestiu o F. C. do Porto de laranja, do que a Camara Municipal do Porto de azul e branco."

in www.tomarpartido.weblog.com.pt

Gente sensata


"Uma nova Lei do Cinema não deve servir, como alguns pretendem, para obrigar os portugueses a ver os filmes que se fazem, mas para permitir aos portugueses fazer, enfim, filmes que se vejam».
António Pedro Vasconcellos
Dito desta forma nua e crua, parece uma evidência de la Palisse, mas a verdade é que, bem vistas as coisas, não se entende porque é que afinal é tão difícil fazer cinema português "que se veja" ?
Tenho de ser justo, não passo pelo cinema português há um bom par de anos (e não tenho saudades, mas tenho pena, isso sim!) e admito que, de lá para cá, algo tenha mudado na cinematografia lusa. Não é preconceito ou dogma meu, antes um trauma ainda mal curado que teve a sua génese há longos anos a esta parte no cinema King, ao tentar visionar um filme tão suculento como o nome deixava já antever: "Ossos". Não fosse a minha localização central no dito recinto e uma fila "estranhamente" apinhada de pseudo-cinéfilos persistentes e aparentemente rendidos na indiferença à banhada colectiva que presenciávamos e tinha-me pirado muito antes do relógio me mostrar à evidência que 5 minutos haviam passado com a lentidão própria de um "discurso" televisivo de Mário Zambujal.
Ainda nesta matéria, há pouco tempo e aquando da minha escapada madrilena me perguntavam, entre o incrédulo e o horrorificado, mas por que raio tinha eu ido ver um filme português? Duas interrogações aparentemente contraditórias tomaram conta do meu espírito :
1) Estou perante gente preconceituosa e que pensa (com alguma razão) que somos uma saloia província espanhola e como tal, cinema não anglo-saxónico, só mesmo o produzido pelo Pedro Almodôvar ?
2) Como é que alguém que eu sei de antemão tão afastado do panorama cinematográfico português, pode, logo à primeira, ser tão certeiro numa observação/indagação como aquela?
Eu por mim, entre o embaraço inicial da questão e a humilhação indogenamente contida (não estivesse eu no estrangeiro) ainda acredito que se venha a fazer cinema português que se veja, logo a resposta é óbvia: vou porque ainda tenho esperança. Só não sei bem quando, antes do "exílio", não certamente.
Só espero que não seja preciso vir o "Scolari" do cinema para que tal seja possível, até porque existe toda uma nova e talentosa geração disposta a fazer melhor. O que, convenhamos, será tudo menos difícil. Mas se assim tiver que ser, então que o seja. A bem da sanidade cinéfila nacional.

terça-feira, junho 20, 2006

Assino por baixo

JÁ CÁ FALTAVA...
«Contra equipas deste nível diria que chegava o Deco», disse Pinto da Costa, com a sabedoria superveniente que o caracteriza. Diria ou diz mesmo? Tem graça que eu tive imensa pena de constatar que há quatro anos, nas mesmas circunstâncias e com equipas do mesmo nível que estas, não pude dizer o mesmo dos seus amigos António Oliveira e Vítor Baía. Eles fizeram certamente o seu melhor, mas infelizmente não conseguiram então fazer o óbvio.

domingo, junho 18, 2006

A falta que África faz...


É verdade, não podia deixar de fazer menção ao Mundial 2006. Não tanto para falar de tácticas ou de qualquer outra ocorrência relativa ao que se passa dentro das quatro linhas, mas antes para dar nota do que se passa fora das mesmas.

É impressionante a força mediática deste mundial da Alemanha 2006 e a enorme convivência inter-cultural que ele permite. Futebolite aguda ou cobertura proporcionada à escala do interesse global que o evento gera, a verdade é que os mundiais adquirem um gosto muito especial, exactamente por ser mais ou menos representativo das nações dos cinco continentes deste nosso mundo. E assim, todos aqueles se deslocam à Alemanha, tomam inevitavelmente parte num caldo cultural que qualquer europeu da modalidade está longe de conseguir alcançar, por razões óbvias.

Olhando o aspecto das bancadas do República Checa Vs. Ghana, dei por mim a pensar que devia estar perante o jogo de bancada mais encantador deste mundial. Por um lado, as já bem conhecidas e reputadas adeptas checas e por outro, a massa incrivelmente entusiástica africana, no caso, os ganeses.
E são estes últimos que merecem uma atenção especial hoje, não fosse emprestarem um jeito tão tipicamente africano e festivo a cada jogo da sua selecção, não me fazendo por um minuto sequer duvidar que efectivamente África tem de ter uma espécie de encantamento, aliás, já por demais relatado por muitos dos quantos já por esse continente estiveram, ainda que a razão ou fundamento do mesmo nem sempre consiga passar nessa mesma mensagem. Acredito que é caso para dizer: ver para crer ou melhor, ir para sentir.
E apaixonados se apresentam os africanos no velho continente futebolístico, dispostos a demonstrar o seu modo de estar na vida, completamente alheados dos canônes do chamado mundo desenvolvido, emprestando uma cor e uma alegria tão genuína que não podia deixar de ser aqui por mim enaltecida.

Lamentar apenas que hoje África continue a ser ainda (em maior parte dos casos) sinónimo de fome, miséria, corrupção e sobretudo de guerra.
Faz falta ao nosso planeta azul (eu digo que é verde) um continente africano tão coloridamente pintado, quanto os adeptos (alheios aos resultados) vão fazendo a festa neste mudial, por forma a varrer de uma vez por todas com os tons teimosamente sombrios que persistem em marcar o presente de um continente tão rico de passado, mas acima de tudo tão cheio de futuro.



sexta-feira, junho 16, 2006

A globalização, por Professor Karamba


O seleccionador de Angola - Oliveira Gonçalves - fala melhor português que o seleccionador de Portugal. Será isto a globalização?

A propósito, dei por mim - aquando do golo de Portugal contra os Palancas - a ver o treinador de Angola, qual Professor Karamba, a olhar desesperadamente incrédulo para um pequeno livro que ostentava na mão direita. Nada de especial, não fosse o ar desnorteado e desiludido com que fitava aquilo que parecia então ser um qualquer livro técnico sobre o ABC de um treinador. E o seu rosto de incredulidade deixava perspassar a ideia de que estranhamente ou talvez não, no dito livro não constava qualquer capítulo relativo a um golo da equipa adversária. Injustiça é o que é! Um homem compra um livro e depois é atraiçoado daquela maneira vil e infame.
Bem entendo o seu desânimo, afinal era a primeira vez e quando assim é ninguém quer fazer má fugura. Não fez má figura por ter perdido, mas convenhamos que um compêndio de instruções nunca podia augurar uma estreia auspiciosa.
Ora, se este é o denominado Mourinho africano (como muitos clamam), recomenda-se uma reciclagem formacional junto do seu mentor.

O Professor Karamba é uma figura simpática e gabo-lhe o seu português, agora faça-nos um favor: "Não negue à partida uma ciência que desconhece!" e deixe o livro no balneário.

quarta-feira, junho 14, 2006

Notas de Madrid - Parte II

Espanha está mesmo aqui ao lado e ainda assim consegue ser tão diferente (para melhor) da nossa Lusitânia. Não quero com isto dizer que seja tudo bom, porque não o é. A diferença é que no fundamental Espanha progrediu e muito, ao invés dos bacocos complexos que reinam teimosamente pela nossa república desde (pelo menos) 1974. Era suposto a democracia trazer progresso e trouxe-o, efectivamente, mas um progresso muito aquém do que alguém nascido depois de tal data poderia esperar.
Mirrados pela geografia periférica que nos coube em sorte, Portugal teima em ser um País que não se quer recentrar face aos seus interesses e necessidades. Não se negue que a localização periférica portuguesa pode ser um verdadeiro fardo de que importaria livrarmo-nos rapidamente. Não podendo nós (graças a Deus) pegar na "carroça" e montar acampamento noutras paragens, cabia aos portugueses a arte e o engenho de fazer de Portugal um rectângulo minimamente central. Afinal a periferia apenas depende da perspectiva. E o mundo não se esgota na União Europeia.
Portugal tem toda uma história e um passado que lhe permitia e permite ser um interlocutor e parceiro por excelência em países de um potencial económico incomensuravelmente superior ao do nosso próprio País, como seja o Brasil, Angola, Moçambique, etc. Mas não, prefere e faz questão de permanecer fechado e preso aos velhos e ridículos dogmas da colonização, que à falta de justificação melhor, demonstra que afinal os velhos do Restelo permanecem tão presentes quanto as personagens históricas evocadas e perpetuadas no Padrão dos Descobrimentos foram desacreditadas nos seus objectivos por essa mesma consciência masoquista e complexada.
Sejamos claros, a colonização mal ou bem, está feita e encerrada. Não vejo nos congéneres países colonizadores qualquer complexo de culpa e arrependimento permanente que faça da sua política externa para com as ex-colónias um exercício de tão miserável submissão como o levado à prática pelos sucessivos governos portugueses.
E aqui volta a entrar Espanha, que indiferente à dominante paralesia cerebral e de (in)consciência lusa, fez das suas ex-colónias terreno fértil e privilegiado rumo à expansão económica do País. Aproveitando e muito bem, para extender a sua influência às ex-colónias portuguesas. Enquanto isto, Portugal, qual ébrio ressacado, persiste em inalar os vapores da descolonização, ignorando as oportunidades do presente e hipotecando seriamente o futuro.
Portugal nunca se deu ao respeito das ex-colónias e prefere sistematicamente o caminho da capitulação. Em suma, quem não se dá ao respeito não pode querer ser respeitado. E assim não há orgulho que resista.

terça-feira, junho 13, 2006

De regresso à aldeia - Notas de Madrid - parte I

Foi um fim-de-semana intenso, pelo menos a avaliar pelo numero de quilómetros percorridos. Mas valeu a pena, aliás, Madrid vale sempre a pena, é Madrid e está tudo dito.
Em termos de restaurantes, muito ficou por visitar, não fosse ser uma cidade em que quase todas as semanas abrem novos espaços dignos de visita. Não há "escapadinhas" que aguentem tamanha dinâmica. Assim sendo - na impossibilidade de experimentar todas as novidades - optou-se por matar saudades das suculentas tapas da Lateral da calle Velásquez. E não desiludiram. Continua a ser um point muito acertado, mas recomendo que não se indo jantar muito cedo (até às 21H), então a alternativa é chegar a partir das 23H (cozinha encerra às 24H), porque de resto é verdadeiramente desesperante a espera por uma mesa. Mas vale a pena. Isto, claro, se olvidarmos a corbatera de ar duvidosamente masculino e rude que gere a chegada dos clientes e que vai chamando com uma tarimbada voz rouca e irritante os clientes aos seus lugares.
Já novidade foi a ida ao Olsen (c/ Prado), restaurante norueguês também existente em Buenos Aires. Decorado sobriamente ao estilo nórdico, resulta agradável à vista e ao estar, a que não é alheio o bom critério acústico do DJ de serviço. Nota de destaque para os cocktails de entrada, todos baseados em vodkas polacas, bem conseguidos na imagem e de agradável paladar, escondendo o elevado e conhecido volume alcoolémico da matéria-prima base. Quanto à ementa propriamente dita, não desmereceu a nenhum dos presentes o frango com cogumelos em vinagreta e pistachios ligeiramente caramelizados, tudo bem rematado com uma fatia de queijo de cabra. O mesmo se diga do magret de pato, muito apreciado, ainda que não me pareça uma escolha muito originalmente nórdica. Quanto aos vinhos, nota para uma carta bem variada quanto às suas origens e equilibrado nos preços, onde nem sequer faltava um Alvarinho português. Com uns entretens de boca, que é como bem diz com unas tapas simpáticas e essas sim mais originais, sempre acompanhadas com chupitos de vodka, é um restaurante que deu boa nota do que por ali se faz, sem que tenha sido um autêntico deslumbramento. Dipõe de um lounge bar na cave, mínimo nas dimensões mas sapiente na eleição musical, acaba por ser um espaço a levar em conta nem que seja apenas como local para a primeira copa da noite (http://www.elmundo.es/metropoli/2006/06/02/copas/1149199246.html. Por último, de referir a possibilidade de comer um sushi nórdico em que pontuam os peixes daquelas paragens, como é o caso do arenque.
Refeições à parte, foi o encontro com uma cidade que vivia intensamente o acontecimento de Domingo: a manifestação contra o terrorismo, a qual juntou em Madrid centenas de milhares de pessoas, vindas de toda a Espanha, as quais, entre outras coisas, contestavam a negociação política entre o Governo e os terroristas da ETA. E os espanhóis vieram em força para a rua. Ninguém pode imaginar o que é viver décadas de terror sob a égide da ETA e agora aceitar que se sentem uns e outros à "mesa das concessões".
Dizia-me alguém daquelas paragens que Zapatero está a destruir Espanha não só politicamente, mas também economicamente. De repente, veio-me à memória o nosso "saudoso" engenheiro, que tão pantanosamente nos deixou depois de uma deriva de despesismo acriterioso e simpatia oca de conteúdo e farta em consequências nefastas que hoje ( já sem a sua bonomia) começamos a pagar. Uma a uma.
A diferença é que Espanha tem efectivamente um poderio e uma pujança económica que Portugal jamais conhecerá, nem sequer a médio prazo. E por enquanto é esta vitalidade económica dos agentes que vai suportando a mais demagógica e kamikase governação espanhola dos últimos 20 anos. Sempre e sempre sob o alto patrocínio da Al-Qaeda, a qual através do 11 de Março elegeu o seu primeiro governo na velha Europa. Essa escolha tinha que ter um preço e este ainda não está totalmente à vista, mas que vai ser elevado, ai isso vai.

quinta-feira, junho 08, 2006

Madrid me mata !

Muita água correu por baixo da ponte ao longo desta semana infernal. Sim, infernal não só pelo calor abrasador da lezíria, mas sobretudo porque um escroque e pulha resolveu sair da toca. E logo no dia do anti-Cristo ou coisa que o valha. Coincidência ou talvez não, a verdade é que já me deu dores de cabeças suficientes. E não fosse estar tudo a coberto do segredo de justiça, lá adiantaria umas verdades sobre esta inenarrável trama. Mas não perde pela demora. Lá diz o povo com a sua sábia razão "Que pela boca morre o peixe". E assim vai ser, o "feitiço virar-se-á rapidamente contra o feiticeiro". E o mais certo é ainda vir a arrepender-se.
Mas isso deixa de ser da minha conta. Aliás, eu já tenho contas que cheguem, curiosamente quase todas a zeros, as bancárias, claro.
Passado este capítulo do 666, cá me encontro no meio de uma verdadeira pucilga de processos para contestar, responder, alegar, etc. Voltei ao mesmo, à velha e boa tradição de nunca vislumbrar o tampo da minha secretária, o que até pode ser positivo, porque afinal sempre posso imaginar que se trata de uma elegante mesa de faia. Mas não é e tenho pena.
Entre este emaranhado processual de prazos em cascata, que decidiram findar todos por alturas deste final de semana, lá arranjei um tempinho (tem de ser) para organizar um ida a terra de nuestros hermanos. Há muito tempo que não vagueio por aquelas paragens e tenho saudades. Sei que são mútuas e muito quentes, não fossem estar por lá cerca de 35 graus de temperatura . Confesso que me agrada muito mais a cidade na época de Inverno, tem mais alma e os nativos, ao contrário do que acontece em tempos de maior calor, não se assustam com temperaturas a rondar os zero graus e invadem literalmente as calles com uma mistura intensa de perfumes e tagarelice, tão própria por aquelas paragens.
Com muito frio, é certo, mas ainda assim um frio saboroso e próprio de quem anda de vacaciones (ainda que de médico) entre as griffes da moda no elegante barrio de Salamanca, as tiendas trendy de Fuencarral, sempre mas sempre, sem esquecer uma passagem pelo tasco do Alberto, situado na calle Galileo, onde muito aturo os suspeitos do costume por causa do seu já famoso, entre as hostes tugas, licor de hierbas. Não fosse o Alberto português dos sete costados e já teria havido confusão a sério no boteco. Mas assim não sendo, tudo acaba em bem.
Deixando os vapores ébrios do transmontano Alberto, e num registo mais aprumado, é obrigatória uma visita ao José Luís, restaurante no final da calle Serrano ao desaguar à Castellana, e provar as suas bem preparadas tapas, que se querem maridadas com un tinto da Rioja ou Ribera del Duero, mas que também não desalentam quem opte por um mais mundano tinto de verano ou a habitual caña. Ainda que não aconselhe esta última hipótese, a menos que se seja apreciador da cerveja pouco gasosa, para não dizer inerte, que por ali habitualmente se serve.
Com o registo mais formal do José Luís pelas costas, merece menção a "Lateral" no bairro de Salamanca, não obstante não ser propriamente uma novidade, nunca deixou de ter os seus encantos. E as casas cheias com que que os seus donos são presenteados nos finais de semana dão boa nota de um serviço agradável a que, aliado a uma frequência bem simpática, não desmerece uma visita. Mas que não se quer demasiado tardia porque não aceitam reservas.

A continuar...

segunda-feira, junho 05, 2006

Já espreita...

Pois é, entrei em contagem decrescente. Até Julho é um passo e há que aproveitar todos os fins de semana até lá. Incluído o que ontem findou. Desde japa food a umas saídas nocturnas, passando pela praia e sem esquecer um "ir de compras" (ainda que sem nada comprar), de tudo se fez um pouco este fim-de-semana. Sobretudo, tudo com mais intensidade. Afinal, o espectro do exílio aproxima-se a um velocidade maior do que eu provavelmente gostaria. Mas é mesmo asim e não me queixo deste fado. Certamente que há piores, mas já agora gostava de exemplos...

Ontem, foi o regresso balnear após a saga mosquiteira que se havia abatido sobre o litoral deste País à beira mar plantado. E não correu mal, não senhor. Mosquitos nem vê-los, os miúdos dos Morangos, muito menos. Enfim, tudo se conjugou para que, com a ausência de vento, se disfrutasse da muito simpática esplanada do Guincho. Assim, poucos minutos depois já a sangria corria escorreita entre jarro e copos, sem grande paragem nestes últimos. Afinal, estava calor e o ambiente convidativo ao dolce fare niente. E assim foi, nada se fez. Pôs-se a conversa em dia, traçaram-se planos de férias dignos de Willy Fog que, como a experiência me vem demonstrando, saiem mais das vezes completamente gorados. Mas haja esperança e saia lá mais um jarro que esta conversa sobre férias deixa-me sempre a garganta seca.